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29 de novembro de 2016 - 14:06Crônica

O sonho acabou. Até sempre, Chape

Por Pedro Henrique Marum

Há momentos na vida em que seu coração para. Não existe uma regra. Pode ser olhar para a pessoa que você ama, pode ser uma decepção, pode ser uma oportunidade. Hoje, para mim, foi uma tragédia. Em praticamente qualquer outro dia do ano, eu estaria acompanhando o desenvolvimento das notícias do acidente aéreo que ceifou mais de 70 vidas, incluindo jornalistas, tripulantes e a Chapecoense – seus jogadores, comissão técnica, dirigentes – no que configura o dia mais triste da história do futebol brasileiro. Do esporte brasileiro. Ontem, não. E hoje quando eu acordei e abri meu WhatsApp, comecei a passar pelas mensagens em descrença. Meu coração parou.

Isso não pode acontecer, certo? Claro, as pessoas morrem em acidentes aéreos todos os dias, mas não jogadores de futebol. Só nos livros de história, mas não acontece na nossa vida real. Não no Século XXI.

E aí vem o beliscão mais dolorido possível, com os maiores requintes de crueldade que eu conheço.

Voltando a mim um momento – e é claro que eu sou insignificante, mas vou chegar ao meu ponto -: especificamente ontem eu decidi desligar tudo e dormir cedo porque não estava bem, estava decepcionado comigo mesmo, com a vida e precisava parar um pouco. Minha noiva e minha mãe me fizeram parar um pouco.

É risível, não é? Meus problemas, ó quanto sofrimento, foram um soco na cara. No fim das contas, problemas são só problemas. Pedras no caminho são só pedras no caminho. E o esporte, lindo, a maior invenção do ser humano, é só esporte. A vida, ela está acima de tudo. E a vida é frágil, um sopro. Qualquer coisa pode tirá-la em um momento fortuito qualquer. Somos muito pequenos, e a nossa pequenez nem sempre se apresenta a nós em vida.

Nós, humanos quase insignificantes, gostamos de pensar que somos esses heróis imbatíveis que vamos viver uma vida plena e morrer dormindo por causa de uma gripe aos 150 anos de idade. E talvez, porque somos tão patéticos e pequenos, isso seja necessário. Talvez só achando que temos 150 anos para viver nós consigamos viver sem estarmos em letargia pelo medo de não dar tempo. Pelo medo de a vida acabar. Talvez seja o maior dos nossos escudos.

A Chapecoense escrevia o mais lindo capítulo da sua história. Um dos mais lindos capítulos da história do futebol brasileiro, uma campanha lendária de uma equipe que embala uma cidade. Chapecó pulsa por esse clube, que disparou rumo à primeira divisão e às competições continentais e que não vivia uma realidade de megalópole. A Chapecoense fez tudo certo nesta década. E agora era a hora de brilhar, ser campeã sul-americana, chegar à Libertadores.

Eu dizia semana passada que a defesa de Danilo, uma das maiores que me recordo e que levou o time à final continental, deveria ganhar uma estátua na frente da Arena Condá. Danilo não resistiu ao acidente.

Talvez agora, aquela defesa contra o San Lorenzo deva ser símbolo na frente do Maracanã também, a representação de um sonho que foi possível. De um sonho que foi sendo conquistado metro a metro, minuto a minuto. Num sonho que transformou a Chapecoense na Chape Terror, no time do Brasil.

Cruel, quis a vida que o maior sonho entre todos os capítulos escritos nesta história de Cinderela tivesse para sempre uma lacuna no lugar do retrato final.

A Chapecoense de 2016, a histórica Chape Terror, sai de cena como um grupo que jamais será esquecido. Um grupo que caracteriza o sonho, sonhado tanto que se tornou realidade.

Nós somos insignificantes. Nós morremos por qualquer coisa, mesmo, em qualquer dia. Mas só nós podemos ser imortais.

Imortais. O dia mais triste da história do futebol brasileiro, do esporte brasileiro, coloca esses jogadores, esses técnicos, preparadores, todo mundo, nossos colegas jornalistas, inclusive, na imortalidade. São imortais desde esse sombrio 29 de novembro.

O sonho acabou. A eternidade é o novo lugar da Chapecoense.

2 comentários

  1. Fernanda disse:

    Parabens pela sensibilidade do texto .O Chapecoense não morreu ,Agora eles foram disputar outro campeonato para outra plateia ,e como todo campeonato precisa de jornalistas e cinegrafistas para colocar todos a par dos feitos .Nos choramos a saudades ,O céu aplaude com a chegada de tantos craques .Bom “campeonato” irmaos que JESUS os envolva .

  2. Al disse:

    Hoje tivemos mais um capítulo da série, com a aposentadoria do Rosberg. Da mesma forma que uma tragédia como a da Chape pode nos inspirar a refletir sobre a fragilidade de nossas vidas, a corajosa decisão do Rosberg, de renunciar ao melhor cockpit do topo do esporte a motor é chocante, pois no mundo de hoje julgamos inadmissível não querer ir além quando já conquistamos algo grande. Rosberg é mais um dos que nos mostram que podemos sim, podemos renunciar àquilo que todos julgam glorioso e importante e por as prioridades no seu devido lugar.
    Que sua decisão de estar mais com a família seja recompensada.

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