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30 de maio de 2016 - 02:38Indy 500

Alex, ex-renegado, dono de Indy

Por Pedro Henrique Marum

Não que alguém duvidasse. Em toda sua roteirização impossível, o esporte sempre sabe quando as grandes histórias se fazem necessárias. A 100ª Indy 500 era um destes dias e eventos em que a mera grandeza exigia um toque ‘inroteirizável’. Ninguém sabia o que ia acontecer, mas todo mundo sabia o que aconteceria. Me entendem? Era óbvio, evidente, que uma corrida assim só poderia terminar com uma história inesquecível.

E imaginem só Alexander Rossi, um Zé Ninguém nos Estados Unidos, embora norte-americano. Ninguém o conhece, ninguém se importa que ele andou na F1. Retardatário por meras três ou cinco corridas, rejeitado pelo pior time do Mundial e por uma esquadra novata, também americana, que preferiu um francês e um mexicano por não confiar no talento de qualquer compatriota disponível, não havia muito motivo mesmo para lembrança.

Imaginem um piloto que nem recebeu aplausos da arquibancada porque sabe-se lá quem é esse sujeito que nem sorrir direito sabe e está lá atrás, junto de Takuma Sato e Oriol Servià.

Imaginem um piloto que foi rejeitado por meio mundo. Rossi ouviu nãos constantes da F1 várias vezes. Das nanicas Caterham e Marussia, especialmente. Até que recebeu uma chance que não durou mais que uma mão cheia de corridas para mostrar alguma coisa. Andando lá atrás, honestamente, pouco importa como se saiu em relação ao companheiro. Quando o ano acabou, mais uma negativa. Sem GP2, sem F1, sem ter para onde ir na Europa e com o traseiro marcado por um belo chute, Rossi virou um nômade em potencial. Que voltasse para casa, então. O caminho de Max Chilton, da F1 para a Lights, parecia humilhante demais para um piloto cotado entre os melhores.

Rossi foi jogado, mastigado e cuspido pela implacável boca da F1, que deixa um rastro de carreiras destroçadas e dívidas enormes para quem se aventura sem sucesso. Na Europa, não tinha mais lugar. Só conseguiu um lugar decente na Indy porque Bryan Herta bateu o pé. Herta deixou de ser dono de um time próprio, acertou com Michael e a Andretti para operar um carro sob o guarda-chuva da equipe do amigo. Herta queria este piloto. Conseguiu o seu piloto.

Mas Rossi, um forasteiro em casa, tem experiência zero em superovais, não vai saber o que fazer com o combustível, os pneus e as variações. No meio de grandes nomes da Indy, entre os veteranos dos ovais, é um privilégio apenas participar de uma corrida que jamais será esquecida. A edição #100 não pode ser esquecida jamais, então estar no meio do grid é de se registrar e contar para os filhos.

Entre as cinco Andretti, ninguém apareceu menos durante as duas últimas semanas. Na pista e fora dela. Durante a corrida, nada de pular para frente, mostrar um carro espetacular ou uma estratégia ousada. Estava ali, meio do pelotão, sem brigar pelas primeiras posições. Resolveu não parar na última amarela, ganhou algumas posições, mas a vitória estava um mundo distante. Só que, peraí, os primeiros colocados estão parando. Tony Kanaan, Carlos Muñoz e Josef Newgarden não tinham combustível para chegar ao fim. Rossi, bem colocado, tomou a ponta. Só ele passou os três, de fato.

Bandeira branca, e nem tinha mais como acelerar. A inexperiência de como levar ao fim um carro sem combustível ficou evidenciada pelas ordens de Herta no rádio. Quando pisar na embreagem, quando frear, onde acelerar, qual linha assumir. E a quadriculada logo ali, Muñoz longe.

“Bandeira quadriculada… Você venceu a Indy 500, baby!!!”, disse Herta no rádio. Só havia uma coisa que Rossi conseguia dizer, agora ovacionado pelas centenas de milhares de pessoas no IMS. “Oh, meu Deus”. Três vezes, chorando nas três. Talvez a percepção do que falaria mais tarde: sua vida mudou ao receber aquela bandeirada.

Rossi será para sempre o vencedor da 100ª edição das 500 Milhas Indianápolis. O primeiro novato a ganhar no IMS desde Helio Castroneves em 2001.

Imaginem de novo. Como se sentiu esse rapaz, que três meses atrás não tinha contrato ou norte da carreira, sabe lá da vida, ao cruzar aquela bandeira quadriculada e saber os problemas que não terá por muito tempo. Saber o respeito que conquistou, enfim. Ou talvez ele não soubesse de nada disso ainda. Talvez só soubesse que, sem combustível, não teria como levar o carro ao victory lane. Ainda atordoado, talvez tenha até ficado preocupado do trabalho que ia dar. Será que receberia mais um dos esporros que certamente recebeu nestes três meses de Indy?

Cinco anos atrás, Dan Wheldon estava fora do grid da Indy quando Herta o chamou para correr e vencer em Indianápolis. Uma vitória histórica, porque Wheldon estaria morto em alguns meses. Bryan Herta agradeceu Wheldon hoje, após Rossi, no mesmo carro #98, sair de renegado a herói no tilintar de uma moeda. A carreira de Wheldon não teve tempo de tomar novamente o rumo da glória que seu talento já oferecera antes, mas Rossi terá esse tempo.

Herta, como um encantador de renegados, dá a Alexander as rédeas de sua carreira. Ao inferno com quem não o quer, Alex. Seja feliz e ganhe corridas onde te querem. O choro de Rossi, sem saber o que fazer como o vencedor ovacionado, é o primeiro passo de uma carreira que mudou. A Indy 500 número 100 teve a corrida que mereceu e as grandes histórias que pediu. Ainda bem.

A vida pode virar muito rápido. Rossi não é mais quem era hoje de manhã – o trabalho dos três últimos meses mudou sua vida. Às vezes tudo o que você fez na vida pode explodir em glória num período assim. Três meses. A vida mudou, caro. Tenha uma boa nova vida.

4 comentários

  1. R/T disse:

    Que texto lindo, PH
    Flavio Gomes e Victor fazendo escola e identificando os caras que escrevem bem … sensacional, poesia pura os 2 paragrafos que encerrram o post

    Grato pelo texto, saudações e mantenha este excelente trabalho

    falou

  2. Bruno de Freitas Motta disse:

    Muito bom texto!
    Mostrou o que aconteceu com o Rossi para chegar ali e ainda desmerecem o feito dele.

  3. Rafael Pastore disse:

    Que texto sensacional!

    Transmitiu uma tonelada de emoção.

    Parabéns!

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