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27 de abril de 2015 - 16:03Indy, Marchas sobre Selma

Ir ao Alabama nos 50 anos das marchas sobre Selma e não fazer uma homenagem sequer é erro histórico da Indy

Um dos líderes do movimento e hoje deputado, John Lewis, sendo espancado por policiais no 'Domingo Sangrento' (Foto: AP)

Um dos líderes do movimento e hoje deputado, John Lewis, sendo espancado por policiais no ‘Domingo Sangrento’ (Foto: AP)

Por Pedro Henrique Marum

Ir ao Alabama e não fazer única homenagem às marchas sobre Selma foi um erro da Indy. Um erro retumbante. Um erro histórico. Durante as comemorações dos 50 anos do talvez maior evento-símbolo da luta pela fim da segregação racial nos Estados Unidos, a categoria passou pelo estado onde tudo aconteceu – sua única passagem por lá durante a temporada 2015 -, e ignorou a memória daqueles dias de março de 1965.

Para uma categoria buscando recuperar chão com audiências e atenção da mídia na briga da cachorro que existe entre modalidades nos Estados Unidos, talvez tenha custado algo. Uma coluna de jornal ou alguns segundos de televisão. Mas é como memória e respeito a um dos mais importantes acontecimentos históricos do Século XX que a Indy, sempre em busca de inspirar e ser exemplo – como todas as categorias de modalidades esportivas – perdeu mais.

Para quem foi ao cinema ou viu o filme ‘Selma’, brilhante trabalho da jovem diretora Ava DuVernay, é fácil recordar o primeiro grande momento do longa. Quatro meninas descem as escadas de uma igreja brincando como crianças que são. De repente, uma explosão e as quatro morrem. Isso aconteceu, de fato. 15 de setembro de 1963, quatro meninas negras – Addie Mae Collins, Cynthia Wesley, Carole Robertson e Carol Denise McNair – mortas num atentado a uma igreja exatamente em Birmigham, Alabama. Na mesma Birmingham onde está localizado o autódromo de Barber.

Perceba, o gancho estava em todos os lugares.

Não que a luta pelos direitos civis tivesse começado em 1963 ou que o Alabama tivesse entrado no olho do furacão naquele ano. A luta anti-segregacionista começara muito antes, mas havia esquentado exatamente por lá. Em 1955, a ativista Rosa Parks – depois reconhecida como ‘primeira dama dos direitos civis’ – se recusou a se levantar de um lugar reservado para brancos num ônibus em Montgomery, capital do Alabama. O motorista chamou a polícia, que prendeu Rosa.

O evento levou ao catalizador. O boicote aos ônibus em Montgomery. Por um ano, pessoas negras não subiam aos coletivos da cidade num movimento liderado por Martin Luther King, pela primeira vez aparecendo nacionalmente como líder do movimento pelos direitos civis dos negros. Quase um ano depois, a Suprema Corte dos Estados Unidos definiu como inconstitucionais as leis de segregação racial do Estado do Alabama.

Então, o movimento continuou nos anos seguintes. Organizado e pacífico, com muitos rostos e tendo como orador um homem: um pastor de Atlanta. Luther King se tornou não apenas o coração, mas a voz do movimento. A voz com uma paixão e destreza especial com as palavras. Com ele e a Southern Christian Leadership Conference, a luta pelo direitos civis continuou. Ainda no Alabama, de novo em Birmingham, protestos pacíficos. A atenção da imprensa se voltou completamente enquanto os manifestantes eram escorraçados na cidade de maior população do estado.

Até que, em 1965, a intenção era terminar com as restrições para que as pessoas negras votassem em todo o país. Em tese, eles podiam votar, mas deveriam passar por um pacote restritivo que acabava impedindo. Quando chegaram a Selma, a ideia era encerrar isso. Nas primeiras agitações, a polícia matou cruelmente um dos ativistas, Jimmie Lee Jackson. King, ao lado de John Lewis, líder local, Amelia Boynton e mais outros tantos líderes, organizaram, então, uma marcha que deveria percorrer a distância entre Selma e Montgomery. Uma caminhada de aproximadamente cinco dias pelas entranhas do enorme Alabama.

A primeira tentativa aconteceu em 7 de março. Sobre a ponte Edmund Pettus, as forças policiais do xerife Jim Clark e comandadas pelo governador George Wallace, atacaram os pacifistas. Com a imprensa nacional presente em peso, as cenas brutais do que ficou conhecido como ‘Domingo Sangrento’ foram transmitidas para todo o país.

No fim das contas, apenas uma terceira tentativa foi exitosa, de fato, duas semanas depois. Uma passeata exponencialmente maior após King ir à TV e chamar quem quisesse participar. Negros e brancos, mulheres e homens de todo o território foram a Selma. Alguns morreram enquanto estiveram lá. O pastor James Reeb, de Boston, e a ativista e mãe de cinco filhos Viola Liuzzo, de Detroit, foram assassinados pela Ku Klux Klan.

A vitória para essa batalha veio dias antes da terceira e final marcha, quando o presidente Lyndon Johnson sancionou o Ato pelos Direitos de Voto, encerrando as restrições que impediam os negros de ir às urnas e escolher representantes próprios. Lewis, por exemplo, um dos líderes do movimento, é deputado ainda hoje, uma das figuras mais proeminentes na defesa dos direitos civis.

E se o momento é oportuno pela data, também pelos acontecimentos recentes. Os assassinatos de Michael Brown, em Ferguson, Missouri, de Walter Scott, na Carolina do Sul, de Eric Garner, em Nova York, de Danter Parker, na Califórnia, escolha um – todos acontecidos nos últimos meses, todos pela polícia, todos contra homens negros desarmados -, são mais um motivo pelo qual cada organização grande e poderosa deve se levantar para lembrar as marchas de Selma e defender os direitos civis.

Mais um motivo? A casa da Indy, o estado de Indiana. Há algumas semanas o governador Mike Pence passou uma lei segregacionista da pior espécie, “defendendo a liberdade religiosa”. Com isso, donos de estabelecimentos comerciais podem se recusar a servir pessoas que incomodem seu credo. Muito se falou sobre como homossexuais podem ser atingidos com tal ultraje constitucional, e é verdade, mas minorias religiosas e pessoas negras também podem sofrer, já que não há restrição.

Se lembrar de Selma é também repudiar a nova lei, sobre qual a categoria sequer se manifestou, mesmo duas semanas antes de ir ao GP de Indianápolis.

O automobilismo tem uma história linda de luta interna por mais segurança, um sentimento nostálgico de invencibilidade e mesmo da tragédia em tempos que pilotos se aventuravam em verdadeiros pedaços de lata com motores potentes, mas parece apagar quando o assunto é de cunho social.

É uma pena que a Indy, uma categoria sem qualquer piloto negro, ainda tenha esquecido as marchas sobre Selma 50 anos após acontecidas. É o tipo de chance que não volta.

9 comentários

  1. Andre disse:

    Concordo com o que foi escrito. Entretanto, como uma categoria automobilistica e entidade privada que é, não há como romantizar demais o seu papel social. No máximo, nós podemos agir criticamente no sentido de repudiar o seu modus operandi. Acho a atitude da Indy lamentável, mas não “um erro”, se levarmos em conta o tipo de audiência que a categoria talvez espere conquistar e manter: a do homem branco, protestante, conservador. Se é esse público que querem conquistar/manter, homenagear a luta racial nos EUA seria dar um tiro no pé.

    A Formula-E, por exemplo, tem um perfil ecológico que me agrada muito. Mas não deixa de ser um marketing para conquistar um público específico, no qual eu me encaixo. No final, o objetivo principal sempre é a atração de audiência e recursos, estando as demais coisas em segundo, terceiro, quarto plano, a depender do quanto vem a impactar na entrada de dinheiro.

    Mas, voltando ao automobilismo norte-americano. Tanto a Indy, como a Nascar, nasceram em um ambiente conservador de fé no progresso tecnológico, cuja posse da máquina (automóvel) produzia distinção econômica, social e cultural nos EUA na primeira metade do século XX. Já possui em seu DNA a segregação social, cultural e valores clássicos de uma elite branca, colonial que explora commodities em outras partes do planeta, produzindo disparidades sociais em niveis planetários para construir cada peça de um automóvel e manter um modo de vida que retroalimentava e ainda retroalimenta essas disparidades. Daí eu pergunto: não seria um paradoxo cobrar de categorias norte-americanas, que nasceram como vitrines para esses processos, uma preocupação com questões de ordem social, racial e política, que realmente importa para as minorias étnicas e sociais?

    • Pedro Henrique Marum disse:

      Eu concordo com sua leitura histórica. Mas respondendo a pergunta: embora paradoxal, chega um momento em que escolhas precisam ser feitas. A Major League Baseball por exemplo, passou 80 anos de sua história sem ter um negro sequer jogando. Fundamentalmente, todas as grandes organizações esportivas foram iniciadas assim nos Estados Unidos – e na real, no mundo todo. Mas venceram isso. Hoje a MLB tem um dia especial para Jackie Robinson, primeiro negro a jogar na liga, e ninguém usa a camisa #42, que foi a que ele usou em seus dias. No beisebol, isso passou. Era tão paradoxal quanto.

      Quanto a dar um tiro no pé, isso eu não consigo aceitar. Sustentar um fiapo de racismo em 2015 não existe. Se o público da Indy em pleno ano de 2015 se ofende com uma homenagem pela luta aos direitos civis, a Indy precisa urgentemente de novos fãs. E uma categoria desse tamanho e que deseja crescer ainda mais, o espectro de fãs é bem mais amplo.

      Grande abraço!

  2. luiz disse:

    Lindo, oportuno, atual e principalmente um texto que remete a acontecimentos passados, porém presentes em qualquer país que ignora manifestações de intolerância.
    Alguém sabe a quantas anda o “processo” contra aquele deputado (tão votado!) que fez, em plenário apologia ao estupro?
    Pois é.

  3. Lucas S.A. disse:

    Jovem, acho lindo esse seu discurso,. mas francamente, esta categoria está lutando para não morrer! Duvido que passe pela cabeça de qualquer um lá dentro outra coisa que não “De onde vamos tirar recursos pra pelo menos manter tudo isso ano que vem?”. Se um dia essa zica da Indy passar, cobremos engajamento. Até lá nem faz sentido comparar com a MLB, uma liga pra lá de sólida, e que ainda assim não lembrou os 50 anos de Selma!

    • Pedro Henrique Marum disse:

      Antonio, a MLB tem praticamente um feriado do orgulho negro, o Jackie Robinson Day, e muita gente lembrou de Selma, sim. Mas o que eu fiz não foi uma comparação, propriamente dita. Foi uma analogia argumentativa. Não creio que a Indy esteja brigando para sobreviver, não. Até que tem ido muito bem no último ano e meio. Abraço.

  4. Bruno Molina disse:

    Quem puder, acesse o blog fanaticosporf1.wordpress.com e curta a página Fanaticos por F1 no facebook.
    Gracías! :o)

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