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11 de dezembro de 2014 - 13:01Punta del Este

De colores

F-E já no desembarque do Aeroporto Carrasco

F-E já no desembarque do Aeroporto Carrasco (Foto: Eu Mesmo/Por Isso Tá Uma Bosta)

Por Pedro Henrique Marum, de Punta del Este

O título faz referência a uma música famosa no cancioneiro foclórico de língua espanhola. Conheci essa canção chiclete clássica provavelmente no meu primeiro ano do ensino médio, em 2008 – que para mim já parece uma eternidade. Veio numa das primeiras páginas do nosso livro de espanhol, que usávamos lá no Instituto Nícia Macieira. A professora Marcela ainda levava um aparelho de som para tocar o CD que vinha no livro, com musiquinhas e lições, embora os alunos já tivessem na casa de 16 anos. E quando tocou “De colores, de colores se visten los campos en la primavera”, e por aí afora, não aguentamos. Virou um hit interno, sempre cantado e berrado num tom irônico.

Não sei quantos ex-colegas e amigos da minha sala vão ler esse texto, se é que algum, e nem sei se os que lerem vão lembrar. Eu mesmo não repassava essa música na minha cabeça há alguns anos, provavelmente. Nem me forcei a lembrar ou vi algo que me remetesse ao Nícia, à professora Marcela, às colores ou aos campos da primavera. Mas bastou eu chegar ao Uruguai, na madrugada desta quarta, para que as colores voltassem a me povoar o córtex como se estivéssemos no colégio.

Foi involuntário. E, sim, chegamos. Os leitores do Grande Prêmio já devem ter lido o texto de buenos dias feito por Victor Martins. Estamos aqui, ele, Evelyn Guimarães e eu, porque, dizem, alguns carros elétricos vão correr aqui entre a praia e os cassinos daqui alguns dias. E eu estou ansioso por isso também.

Mas é minha primeira cobertura internacional como jornalista e também minha primeira visita além das fronteiras brasileiras por qualquer razão. E a felicidade por chegar aqui, no lindo Uruguai, me trouxe de volta memórias doces de música e de quando eu começava a sonhar o que faria da vida.

Minha saga começou ontem no Rio, ao calor de 40 e tantos graus, passou por uma nublada São Paulo e chegou a uma Montevidéu mais fria e no breu da noite. No avião, tive de me contorcer para não perder minha caneta, a única que tenho notícias de ter trazido nesta salada que é minha mochila. Depois, num aeroporto jeitoso e organizado por demais, o Carrasco, notamos a única falha: parar tudo. Achamos um McCafé, o suficiente para nos manter alimentados por algumas horas.

Às 5h, o ônibus para Punta del Este. Nós, acostumados aos ônibus intermunicipais brasileiros, estranhamos ao ler um “semi-directo” indicando que ele pararia algumas vezes. Só que parou em todas, e acompanhado pelas luzes de led que beiravam o compartimento das bagagens de mão e faziam o ônibus mudar de cor em tons que o davam pinta de uma Boogie Oogie sobre rodas. Melhor que alguns varejões volantes que passaram rumando a outros destinos.

Punta era o final, só para aumentar nossa curiosidade. Estaria mentindo se dissesse que achei todo o caminho entre a capital e a ponta do leste muito bonito, porque passei essas duas horas tentando tirar alguns minutos de sono que fossem. E nas raras vezes em que conseguia, era acordado ora por um assento despencando em meus joelhos, ora por um passageiro que na certa se esquecera de tomar banho.

Ao chegar, vimos uma cidade diferente de qualquer outra que eu tenha conhecido antes. Não tem tantos prédios, como nas cidades litorâneas lindas, grandes ou pequenas, mas sempre megalômanas do Brasil. Mas a arquitetura e as diferenças entre si e entre todos de praticamente todos os edifícios é singular. Vimos a mão que sai da areia, ou Monumento al ahogado, um monumento em aviso aos banhistas do perigo que pode ser a Praia Brava. Como se o nome não fosse um bom aviso.

E fomos andando por 1 km, talvez um pouco mais, de mala e cuia, mas conhecendo um lugar absolutamente espetacular. Fizemos amigos, também: duas cadelas, claramente de rua, mas robustas e simpáticas por demais. Nos acompanharam por boas centenas de metros, aproveitando que as ruas puntenses ainda estão desérticas às 7h. Nos apresentaram alguns prédios, algumas esquinas, marina. E quando chegamos ao hotel as duas ficaram sentadas na porta, olhando com mais altivez do que tristeza.

Como eram as cadelas? Uma preta, a que primeiro se apresentou, e uma loira, que chegou na sequência. Sintonia de colores, de colores se visten los campos en la primavera. De colores son los pajaritos que vienen de afuera. Y por eso los grandes amores de muchos colores me gustan a mi.

Não lembro de quem é a música. Para ser sincero, não lembro se o livro trazia um nome creditado como responsável pela obra. Poderia procurar, mas não quero. Pelo menos não antes de mandar o post ao ar, acho que perderia um pouco do romantismo.

Ainda temos muito a fazer por aqui, e faremos. Mas sem esquecer de apreciar as pequenas coisas, do contrário não faria o menor sentido.

Primeira olhada no cassino (Foto: Eu Mesmo/Por Isso Tá Uma Bosta)

Primeira olhada no cassino (Foto: Eu Mesmo/Por Isso Tá Uma Bosta)

1 comentário

  1. Raquel Salles disse:

    Incrivel! Me fez sentir como se estivesse por ai. Vc escreve muitíssimo bem. O talento vem de família? Kkk

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